domingo, 17 de outubro de 2010

Tiger Mountain Peasant Song inspiration.

Gosto de paixões platônicas.


Imaginar o quão carente aquele cara que vi tocando Love me do em sua gaita no metrô é. O quão cult os 3 garotos da minha faculdade são, cada qual em sua casta. O quão educado é o vendedor da loja de livros.

Seus gostos musicais, seus interesses, seus problemas. Se gostam de cinema, conhecem rugby, sabem apreciar uma boa cerveja barata num buteco. Se a mãe é preocupada, se a mãe é descolada, se a mãe está morta. Os sapatos que vestem, as meias que preferem, a camisa larga, curta ou pra dentro da calça.

Avalio o perfil a ponto de definir até o tom de voz perfeito em que deveriam abordar uma mulher, a ponto de definir também a mulher perfeita para eles.

Indelevelmente essa mulher não sou eu. Ela sempre tende a ser a Joan Baez ou a Jeanne Moreau, ou alguma garotinha de meu convívio que se assemelhe melhor ao meu parceiro platônico.

Talvez por serem impossíveis, talvez por serem cômicos na minha mente, essas paixões perduram por anos, pra sempre. Sem exageros, consigo lembrar das minhas paixotines de colégio com a mesma intensidade que as sentia na época.

Nunca conquistei nenhum desses caras. A maioria deles eu nem mesmo falei. Não faria sentido falar, perderia o encanto. Gosto do mistério, da imagem idealizada, do frio na barriga que dá ao passar do lado.

Certamente tudo isso soa bem infantil, mas há de fazer sentido para aquelas que gostam do que jamais foi convencional e sempre será atemporal.


P.S.: Sim, eu sei que essas garotas não convencem muito visualmente, mas simplesmente feche os olhos e escute. Além de ser uma das melhores músicas do Fleet Foxes, esse cover das suecas está realmente soberbo e ilustra muito bem a "convencionalidade e atemporalidade" do meu textinho.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Epifania.

Dizem que os irlandeses são os "italianos celtas", vide a máfia e a mob das metrópoles com descendentes nos Estados Unidos.

Pedi ao taxista que me levasse a um bom pub com boa comida. Ele me arrancou uns 30 euros e me levou até o Dolan's Pub & Restaurant na Dock Road de Limerick. Gostei de cara. Até perdoei o ato de extorquir turistas do coroa ao volante. Afinal, e apesar de tudo, são o povo mais gentil do mundo segundo essas pesquisas que ninguém sabe de onde surgem.

Garoava, claro, mas dei apenas uns 5 passos até a pesada porta verde de entrada. Uma idosa garçonete pegou meu casaco e malão com toda a doçura e logo tratou de me acomodar em uma mesa de canto para seis ou sete pessoas. Reafirmava a tradição do lugar o sofá embutido estofado em couro deveras gasto, fazendo par com a mesa. Isto, acompanhado dos locals, frequentadores do pub, que pareciam conhecer todos que ali estavam exceto a mim.
- I'll have a Pint and a hot Stew.
- Grand, young darling. Our Stew is for sure the best around. - Disse com o sotaque carregado que tanto adoro. Colocou um cinzeiro na mesa antes de se retirar, quase que adivinhando a minha alegria em compartilhar nicotina nos poucos lugares fechados públicos que ainda se é permitido. Como diabos não amar esse país?

Acendo o cigarro e me sinto um pouco desconcertada por estar só. O lugar não estava cheio, mas a mesa dava a entender que estava esperando gente. Ou talvez eu fosse a única que estava pensando isso e todo o resto estava preocupado em ver o Munster ganhar do Leinster, beber outra pint, ver seus netos crescerem, suas ovelhas darem lã e todas essas preocupações que não soam nem um pouco mundanas para nós, endiabrados das cidades grandes.

Minha pint chega, acompanhada da pergunta de por quê me encontrava justamente nesse pub. Lhe contei do taxista e da minha escolha às cegas. A senhora riu e atracou minha cabeça ao seu avental, dizendo o quão doce eu era. Lembrei da minha nonna.

Com a cerveja escura repousada, a sensação de desconcerto é ainda maior. Ninguém sozinho está sentado em mesas. Aliás, não existe ninguém sozinho ali. Os casais, famílias, compadres, crianças e até o padre da região estão interagindo, rindo e vibrando com o jogo de rugby da TV. O clima é tão bom que observando apenas gesticulações de um senhor que encenava o que parecia ser um homem tentando ligar um trator me fez gargalhar sem nem mesmo conseguir ouvir a estória. Claro, esperei que ninguém tivesse visto minha reação.

- Yooou byy yourrrselvee? - Percebo um jovem com o vestígio de um riso no rosto. Viu minha gargalhada.
- Ahn, yeah.
- Shall I make you company then? - Apenas aceno com a cabeça.
Apago meu cigarro, ele se senta.
- You shouldn't smoke, you know.
- Oh, what kind of Irish are you? Health generation? - Brinco. Ele parece não gostar, mexe no bolso e joga um maço na mesa. Dou risada, ele também. Sempre curti o sarcasmo dessa gente.

Meu Stew chega, acompanhado de pão e da senhora Molly.
- Jim, lad, you behave yourself. This lady is classy. - Puxa uma das orelhas do garoto.
Pergunto se ele está servido e ele recusa, diz já ter comido. Dou a primeira colherada e, puta que o pariu, lembro o quanto eu gosto da coisa. Ele diz para tomar cuidado e não morrer engasgada, principalmente porque ele quer saber meu nome antes disso. Limpo a boca e digo que se eu terminar o prato a salvo, conto meu nome.

Estou longe de me sentir desconfortável depois disso. Pelo contrário, a sensação é de uma completa local conversando com um amigo de catequese.

O tal Jim era alto, ruivo, olhos de mármore azul. Mãos grandes, bochechas rosadas, botinas gastas e clássicas. Carregava uma boina na mão e a posição das suas pernas em direção as minhas denotava puro interesse na brasileirinha, mesmo que ele ainda não soubesse minha nacionalidade. A camisa por baixo do colete, a jeans alta dobrada nas barras. Se me pedisse em casamento naquele segundo, com sopa de batatas e músculo na boca, eu diria "SIM! PRO RESTO DA MINHA VIDA EU SÓ DOU PRA VOCÊ! CRIO 12 FILHOS CONTIGO NUM QUARTO E COZINHA!" e viveria em pé de guerra com uma sogra católica louca e longe da minha amada São Paulo eternamente. Porra, finalmente era capaz que tudo isso acontecesse.

Eis que engasgo com o ensopado e morro.