segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Trousers.

Acontece que toda vez que ele goza, ela de verdade quer morrer. Não porque não gostou, o ego da coisa lhe faz bem. Mas de fato é só o ego. Não a preenche. Gozo nenhum dele a preenche. E é só isso que ambos podem oferecer. Uma, ego. O outro, gozo.

Ele foi tomar banho. Ela ficou guardando as lágrimas do lado da cama que escolheu. Não há razão pra sentimentalismo ali. É só um grande nada de teatro e sêmen.

Mas a grande ironia é sempre esperar ele voltar do banho. E do trabalho. Quase o Cotidiano do Chico Buarque transformado em putaria resignada. Fingia já estar em sono quando ouvia o chuveiro desligar. Ela é vaidade. Ele é reafirmação dos culhões.

Soltou a toalha no chão do quarto, vestiu um calção e foi se deitar.
"Você dorme?"
Apertou os olhos mais forte e não moveu um músculo. Pra quê dar boa noite? Nada seria mais deprimente. Ela foi o gozo dele. Ele foi o ego dela.

Ele olhava as costas morenas, voltadas para o lado da parede. Ficava ali ensaiando um abraço conchinha. Sem coragem, virava de barriga e franzia a testa. Ele era o medo. Ela, nem sabia.

Depois de ouvir roncos mansos, ela colocava um robe, abria a sacada, saia, fechava e acendia um cigarro. Olhava a cidade morta, fria, funda. Congelava o cérebro pensando em nada e tudo. Ele assistia sentado, acordado da falta dela. Ela tem insonia. Ele, pouco disso.

No voltar pra cama se queriam de novo. Beijos fortes em alguma coisa que não sabiam compreender.


Era tudo muito bom até ele gozar.